a saudade é bonita nem na poesia

a saudade é feia de todas as maneiras,
em quaisquer aspectos,
não é um coração que se incendeia
num anelo de se ter por perto,
saudade não está no best-seller
de nicolas sparks,
saudade é um ergástulo imundo,
são corpos mortos que arrastaremos pelas veredas
até nos tornarmos o fardo de outrem;
disse-me ela: “tu és eterna em mim”
querida, tudo que é eterno está morto,
e eu serei teu fardo da mesma maneira que serás o meu;
esta cidade está mais imunda que eu,
maculei cada canto borda quina recanto
com saliva e um papo torto
e trouxe de cada canto borda quina recanto um eviterno peso morto.

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filé

subitamente, ele apertou meu braço
-esqueci-me se forte ou não-
lembro-me, apenas, de pensar:
está acontecendo comigo?
e suplicar: não! não está! não está!
ele já estava debruçado sobre aquele corpo
-o corpo que deitou comigo todas as noites desde que nasci-
o corpo que sempre tutelei,
não me pertencia mais.
roubou-me a guarda e me fez espectadora,
enquanto eu, pranteava esperneando
-questiono-me, agora, será que fisicamente?-
talvez esperneei apenas mentalmente,
lançada numa tábua, amassada, crua
dei-me conta, talvez num átimo de tempo,
de que minha súplica nada valeria
e finalmente me tornei, fisicamente,
um ordinário pedaço de carne.
perguntam-me diversas vezes, contudo,
o que eu estava vestindo naquele dia,
que indagação estúpida!
não parece óbvio?
eu estava vestida de mulher.

você entenderá o que é poesia

babe, quando minha língua deslizar
meio a suas férvidas pernas
você entenderá o que shakespeare sentiu ao declarar que o amor é capaz de transformar coisas baixas e vis em sublimes e eternas.

babe, quando eu acariciar seu despido corpo desvanecendo suas dores
você entenderá o que neruda sentiu ao declarar que ama como uma planta que não floriu e tem dentro de si a luz das flores.

babe, quando o sol atravessar a vidraça pela manhã colorindo de amarelo nossas pernas entrelaçadas sobre um colchão
você entenderá o que álvares de azevedo sentiu ao declarar que quer de amor viver sofrer e amar a dor que desmaia de paixão.

babe, quando os meus lábios se deleitarem sobre os seus lábios
você entenderá o que eu sinto ao declarar que com você se perderia em insensatez até o mais sábio entre os sábios.

minha poesia

questiono-me, de tempos em tempos:
todos os escritores são tristes ou todos os seres tristes escrevem?
apenas sei que em mim habita
uma tristeza que não é apenas minha
assola minh’alma com fineza,
linda dor!
pelo rosto flui seu esplendor
e pela tinta da caneta nasce a poesia,
minha poesia
-que também não é apenas minha-
minha poesia é ingrata!
pertence aos corpos nus que se deleitaram meio aos meus lençóis
pertence às lástimas infindas
e jamais pertencerá a mim,
a mim pertence apenas
o vulgar sentir.

como um amor urgente de drummond

querida, diga-me se eu sou mais que uma transa casual
se eu sou um mero desejo carnal
um passatempo banal
porque eu estou desarmada
eu sou uma infeliz fuzilada
pelas lástimas do berço em que nasci
querida, eu estou exausta, deprimida
enfraquecida pelas dores que durante a vida absolvi
e careço alguém que cicatrize as feridas,
que remedie minha alma adoecida
então, diga-me se eu sou mais que uma transa casual
porque você é mais que uma transa casual,
você é como um amor urgente de drummond.

joão e maria

joão, sou uma detenta da vida
condenada a pena de morte
impotente
somos todos impotentes
ainda que tenhas passado teu tempo dilatando esses teus músculos, joão
ainda que a medicina que tanto amas avance décadas
ainda que tu me digas teu discurso mais auspicioso e empoderador
ainda assim, continuaremos impotentes
infelizmente não há ser humano que se designe tão magnificente
capaz de protelar minha partida eternamente
joão, mas quantas eventualidades enigmáticas e lamentáveis, não?
a falência dos órgãos e a decomposição do tecido não desvendam nada
pois quanto a mim?
minha existência será desconsiderada quando deste mundo eu for exonerada?
joão, este lugar sem mim, como será?
e meu sonho, joão, com quem ficará?
e quanto aos meus pensamentos,
de todos, nada restará?
tu diz: “restará, maria, restará!”
e espero que estes fragmetos meus
durem mais do que eu, joão
mas é lancinante eu não estar para presenciar;
joão, diga-me que acreditas em reencarnação
imploro que ignores toda essa tua obsessão pela racionalização
pois ainda és tão menino
para repulsar o que te leva ao desatino
e manter esses teus pensamentos tão prístinos,
ao menos considere comigo
porque o que não faz sentido
é eu, com meu fracasso
ter o mesmo fim de pablo picasso
é eu e você, que somos tão discrepantes
acabarmos tão semelhantes
é todos nós, após tudo,
esvairmos pelos ares e mais nada
absolutamente mais nada
não, joão,
permanecerei em negação!
e não irei te pedir perdão,
não quero partir em paz
pois meramente não quero partir,
eu sou uma moribunda em seu estado terminal
e minha imensurável dor é não saber o desfecho final;
joão, saiba que o dia mais infeliz de minha vida
será o dia após minha morte
o primeiro dia em que o mundo continuará rodando sem meu carnal semblante
e em meu leito
não me despedirei de ninguém além de mim mesma
– adeus à quem não existirá mais.

saúde mental

meu cárcere é a monotonia
de ações ou sentimentos
é o bom senso alheio
de não me deixar sentir
arrastar-me ao caminho
de apenas subsistir
sem o extremo de qualquer sentimento
como se fossemos obrigados
a nos manter no eixo
tentam nos impedir de sentir o êxtase
da paixão,
alegria ou depressão
pegam as próprias emoções
e as trancafiam num caixão
e sequer sentem o luto
seguem a ponderar tudo
resolutos em se mostrarem fortes,
seres hostes
porém me recuso a tal covardia
a me pronunciar em monocórdia
e permito que por minhas veias
circulem emoções intrínsecas
não apenas eufóricas
como também pesarosas
até mesmo pseudo guantes
destarte,
é da dor que surge a arte.