poetess

quero ver toda tua poesia
todo teu carinho toda tua ira
teus cabelos grudados na minha língua
tua cintura quente na palma da minha mão
tuas coxas pesando em cima das minhas
e o teu suor escorrendo no meu colchão
é a tua poesia mais linda
a que vai e vem sobe e desce e grita
revira senta samba e ginga
chupa arranha e pisa
e beija com todo teu carinho
toda tua ira.

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a literatura é mulher

mulher, és o trovadorismo e o humanismo
a soada do alaúde, o batuque do pandeiro
és o ritmo, as cantigas de amor e amigo
de escárnio e maldizer, és o prelúdio
a compreensão do próprio ser e do mundo.
mulher, és o quinhentismo e o classicismo
a carta de caminha, a poesia lírica
és o amor de camões em soneto
que aqui tendes uma alma oferecida
és literatura de catequese e informação
eu sou colombo, teu corpo navegação.
mulher, és o barroco e o arcadismo
profusão de gongorismos e conceptismos
emanas fulgor no sagrado e no profano
resguarde-me do desassossego urbano
faremos um locus amoenus de abrigo
carpe diem comigo.
mulher, és o romantismo e o realismo
tanto a fantasia, o idílio e a melancolia
— helena, inocência, lucíola e moreninha —
quanto a medida, o escopo e a mira
— rita baiana, capitu, marcela e virgília —
me olhas com olhos benevolentes e atiras.
mulher, és o naturalismo e o parnasianismo
refletes na pele morena a beleza dos nativos
e no teu corpo desnudo, o primor do erotismo
tens os anelos humanos e os bravios instintos
és a arte pela arte, a métrica de olavo bilac
me mostras o abismo da alma humana
e me matas no realismo miúdo da vida cotidiana.
mulher, és o simbolismo e o modernismo
do pré ao pós, em tudo que reluz por si
és a balbúrdia do sincretismo estético
dos versos íntimos ao espírito moderno
mergulhas na pulsão carnal como serafim
e nossos corações maratonam como sexos
eu sou policarpo quaresma, tu meu triste fim.

você entenderá o que é poesia

babe, quando minha língua deslizar meio a suas férvidas pernas
você entenderá o que shakespeare sentiu ao declarar que o amor
é capaz de transformar coisas baixas e vis em sublimes e eternas.
babe, quando eu acariciar seu despido corpo desvanecendo suas dores
você entenderá o que neruda sentiu ao declarar que ama como uma
planta que não floriu e tem dentro de si a luz das flores.
babe, quando o sol atravessar a vidraça pela manhã colorindo de
amarelo nossas pernas entrelaçadas sobre um colchão
você entenderá o que álvares de azevedo sentiu ao declarar que
quer de amor viver sofrer e amar a dor que desmaia de paixão.
babe, quando eu me imergir nos seus alentos indeliberados
e os meus lábios se deleitarem acrementes em todos os seus lábios
você entenderá o que eu sinto ao declarar que com você
se perderia em insensatez até o mais sábio entre os sábios.

amor adjetivo

ana,
à noite tu despejas teus olhos
nos meus e exclamas que me amas
num tom tão incisivo quanto teus
dedos e com teu vocábulo certeiro
eu até me convenço de que teu amor
seja verso inteiro
no entanto, caio por mim sempre que
tu provas o saibo do meu lado ruim:
ana, teu amor é um adjetivo.
tu amas meu lado sociável de mulher
lépida com riso fácil, meu lado forte
e sofisticado, tu amas minhas pernas
e minha poética, mas rejeitas minhas
angústias internas, quando meu brio
hiberna abandonas meu corpo que se
contorce e consterna num quarto
soturno com cerradas janelas.
tu amas meu eu de batom vermelho
vestido acima do joelho, que lê alice
walker, exala eau de parfum e se
apercebe linda frente ao espelho
mas não amas meu eu esquálido que
se enlaça no desgosto por si mesmo
tu me despercebes se diminuo de
tamanho
não me amas quando eu não me amo.
ana, teu amor é um adjetivo
que tenciona modificar meu substantivo.

filé

subitamente ele segurou meu braço
esqueci-me se forte ou não
lembro-me, apenas, de pensar:
está acontecendo comigo?
e suplicar: não! não está! não está!
ele já estava debruçado sobre aquele corpo
o corpo que se deitou comigo
todas as noites desde que nasci
o corpo que sempre tutelei
não me pertencia mais
roubou-me a guarda e me fez espectadora
enquanto eu pranteava esperneando
questiono-me, agora, será que
fisicamente?
talvez esperneei apenas mentalmente
lançada numa tábua amassada crua
dei-me conta talvez num átimo de tempo
de que minha súplica nada valeria
e finalmente me tornei fisicamente
um ordinário pedaço de carne.
perguntam-me diversas vezes contudo
o que eu estava vestindo naquela noite
que estupidez!
não lhes parece óbvio?
eu estava vestida de mulher.

questiono-me se todos os escritores são
em âmago tristes
ou se todos os indivíduos tristes
depositam seus pesares em uma caneta
sei que em mim
habita uma tristeza que não é apenas minha
assola minh’alma com ininteligível fineza
e eu me devoto em sua beleza
quanto encanto há na dor
por meu rosto flui seu esplendor
e a tinta da caneta germina a poesia
que também não é apenas minha
minha poesia é ingrata!
pertence aos corpos nus que se deleitaram
meio aos meus lençóis
pertence às lástimas infindas
e jamais pertencerá a mim
a mim pertence apenas o vulgar sentir

e a caneta.

diga-me se eu sou mais que uma transa casual
ou se eu sou apenas um desejo carnal
porque eu estou desarmada
eu sou uma infeliz fuzilada
pelas lástimas do berço em que nasci
eu estou exausta deprimida
enfraquecida pelas dores que durante a vida absolvi
e careço quem cicatrize as feridas
quem remedeie minha alma adoecida
diga-me se eu sou mais que uma transa casual
porque você é mais que uma transa casual
meu deus! você é como um amor urgente de drummond.