você/tu

eu tinha versos melhores guardados
no fundo do armário
atrás de uma pilha de roupas bagunçadas
porque eu sempre puxo a do meio e não levanto as de cima
junto com papéis soltos que estavam há meses fora das pastas
junto com um óculos de sol que esqueceram aqui em casa
e eu não fazia ideia a quem pertencia
junto com duas cartelas de remédios desconhecidos por mim
que eu tava pra pesquisar no Google mas sempre me esquecia
eu tinha versos melhores guardados
no fundo desse armário
esperando alguém como você
e eu não sei mais onde eles estão, bem agora que eu preciso
bem agora que você apareceu e eu não tenho mais uma pilha de roupas bagunçadas
descobri o dono dos óculos
minhas pastas estão organizadas
e você pesquisou no Google as finalidades daqueles remédios
bem agora que você apareceu
eu não encontro palavras ou versos
que se aproximem da consistência do seu amor

no meu eu.

poetess

quero ver toda tua poesia
todo teu carinho toda tua ira
teus cabelos grudados na minha língua
tua cintura quente na palma da minha mão
tuas coxas pesando em cima das minhas
e o teu suor escorrendo no meu colchão
é a tua poesia mais linda
a que vai e vem sobe e desce e grita
revira senta samba e ginga
chupa arranha e pisa
e beija com todo teu carinho
toda tua ira.

a literatura é mulher

mulher, és o trovadorismo e o humanismo
a soada do alaúde, o batuque do pandeiro
és o ritmo, as cantigas de amor e amigo
de escárnio e maldizer, és o prelúdio
a compreensão do próprio ser e do mundo.
mulher, és o quinhentismo e o classicismo
a carta de caminha, a poesia lírica
és o amor de camões em soneto
que aqui tendes uma alma oferecida
és literatura de catequese e informação
eu sou colombo, teu corpo navegação.
mulher, és o barroco e o arcadismo
profusão de gongorismos e conceptismos
emanas fulgor no sagrado e no profano
resguarde-me do desassossego urbano
faremos um locus amoenus de abrigo
carpe diem comigo.
mulher, és o romantismo e o realismo
tanto a fantasia, o idílio e a melancolia
— helena, inocência, lucíola e moreninha —
quanto a medida, o escopo e a mira
— rita baiana, capitu, marcela e virgília —
me olhas com olhos benevolentes e atiras.
mulher, és o naturalismo e o parnasianismo
refletes na pele morena a beleza dos nativos
e no teu corpo desnudo, o primor do erotismo
tens os anelos humanos e os bravios instintos
és a arte pela arte, a métrica de olavo bilac
me mostras o abismo da alma humana
e me matas no realismo miúdo da vida cotidiana.
mulher, és o simbolismo e o modernismo
do pré ao pós, em tudo que reluz por si
és a balbúrdia do sincretismo estético
dos versos íntimos ao espírito moderno
mergulhas na pulsão carnal como serafim
e nossos corações maratonam como sexos
eu sou policarpo quaresma, tu meu triste fim.

você entenderá o que é poesia

babe, quando minha língua deslizar meio a suas férvidas pernas
você entenderá o que shakespeare sentiu ao declarar que o amor
é capaz de transformar coisas baixas e vis em sublimes e eternas.
babe, quando eu acariciar seu despido corpo desvanecendo suas dores
você entenderá o que neruda sentiu ao declarar que ama como uma
planta que não floriu e tem dentro de si a luz das flores.
babe, quando o sol atravessar a vidraça pela manhã colorindo de
amarelo nossas pernas entrelaçadas sobre um colchão
você entenderá o que álvares de azevedo sentiu ao declarar que
quer de amor viver sofrer e amar a dor que desmaia de paixão.
babe, quando eu me imergir nos seus alentos indeliberados
e os meus lábios se deleitarem acrementes em todos os seus lábios
você entenderá o que eu sinto ao declarar que com você
se perderia em insensatez até o mais sábio entre os sábios.

amor adjetivo

ana,
à noite tu despejas teus olhos
nos meus e exclamas que me amas
num tom tão incisivo quanto teus
dedos e com teu vocábulo certeiro
eu até me convenço de que teu amor
seja verso inteiro
no entanto, caio por mim sempre que
tu provas o saibo do meu lado ruim:
ana, teu amor é um adjetivo.
tu amas meu lado sociável de mulher
lépida com riso fácil, meu lado forte
e sofisticado, tu amas minhas pernas
e minha poética, mas rejeitas minhas
angústias internas, quando meu brio
hiberna abandonas meu corpo que se
contorce e consterna num quarto
soturno com cerradas janelas.
tu amas meu eu de batom vermelho
vestido acima do joelho, que lê alice
walker, exala eau de parfum e se
apercebe linda frente ao espelho
mas não amas meu eu esquálido que
se enlaça no desgosto por si mesmo
tu me despercebes se diminuo de
tamanho
não me amas quando eu não me amo.
ana, teu amor é um adjetivo
que tenciona modificar meu substantivo.

filé

subitamente ele segurou meu braço
esqueci-me se forte ou não
lembro-me, apenas, de pensar:
está acontecendo comigo?
e suplicar: não! não está! não está!
ele já estava debruçado sobre aquele corpo
o corpo que se deitou comigo
todas as noites desde que nasci
o corpo que sempre tutelei
não me pertencia mais
roubou-me a guarda e me fez espectadora
enquanto eu pranteava esperneando
questiono-me, agora, será que
fisicamente?
talvez esperneei apenas mentalmente
lançada numa tábua amassada crua
dei-me conta talvez num átimo de tempo
de que minha súplica nada valeria
e finalmente me tornei fisicamente
um ordinário pedaço de carne.
perguntam-me diversas vezes contudo
o que eu estava vestindo naquela noite
que estupidez!
não lhes parece óbvio?
eu estava vestida de mulher.

questiono-me se todos os escritores são
em âmago tristes
ou se todos os indivíduos tristes
depositam seus pesares em uma caneta
sei que em mim
habita uma tristeza que não é apenas minha
assola minh’alma com ininteligível fineza
e eu me devoto em sua beleza
quanto encanto há na dor
por meu rosto flui seu esplendor
e a tinta da caneta germina a poesia
que também não é apenas minha
minha poesia é ingrata!
pertence aos corpos nus que se deleitaram
meio aos meus lençóis
pertence às lástimas infindas
e jamais pertencerá a mim
a mim pertence apenas o vulgar sentir

e a caneta.

diga-me se eu sou mais que uma transa casual
ou se eu sou apenas um desejo carnal
porque eu estou desarmada
eu sou uma infeliz fuzilada
pelas lástimas do berço em que nasci
eu estou exausta deprimida
enfraquecida pelas dores que durante a vida absolvi
e careço quem cicatrize as feridas
quem remedeie minha alma adoecida
diga-me se eu sou mais que uma transa casual
porque você é mais que uma transa casual
meu deus! você é como um amor urgente de drummond.

uma cerveja com charles bukowski

charles bukowski,
que saibas o peso de teu nome
e que tuas infelicidades farão
história, tu, como anti-herói
estarás mais na memória do que
os vistosos heróis repletos de
glórias;
através de tuas poesias oscilatórias
entre o ser que admira e o ser que
deprecia,
eu, indesinentemente, absorver-te-ia
pois, és tu que faz arder a realidade
que faz donosa poesia com vulgaridade
então, que a vida seja mesmo cruel
que haja trabalhos braçais, porres
e relacionamentos baratos
mas, que ao menos seja retratada por
um excepcional inconformado literato;
esta noite, literalmente, pegarei meu
copo de cerveja e brindarei com o teu
no entanto, todas as outras noites em
que me acomodo em um canto e abro teus
livros, brindo meu copo de cerveja com
o teu; aqui declamo tão-somente a ti,
irrefletidamente sai de mim a explodir
tu que tiveste fiódor dostoiévski
e ernest hemingway como influência
serás a minha e de muitos
tu que sonhaste em ser reconhecido
como escritor, teu ébrio agror será
para muitos, acolhedor;
entorno o copo então, a ti, velho safado
esta noite serás, enfinamente, valorado.

Concurso de Fãs: Uma Cerveja com Charles Bukowski

joão e maria

joão, sou uma detenta da vida, condenada a pena de morte
impotente, somos todos impotentes
ainda que tenhas passado teu tempo dilatando esses teus músculos
joão, ainda que a medicina que tanto amas avance décadas
ainda que tu me digas teu discurso mais auspicioso e empoderador
ainda assim, continuaremos impotentes
infelizmente não há ser humano que se designe tão magnificente
capaz de protelar minha partida eternamente.
joão, mas quantas eventualidades enigmáticas e lamentáveis, não?
a falência dos órgãos e a decomposição do tecido desvendam nada
pois, quanto a mim? minha existência será desconsiderada quando
deste mundo eu for exonerada?
joão, este lugar sem mim, como será? e meu sonho, joão
com quem ficará? e quanto às minhas compreensões, de todas
alguma restará? tu dizes: “restará, maria, restará!”
e espero que estes fragmentos meus perpetuem mais do que eu
joão, mas é lancinante eu não estar para presenciar
então, diga-me que acreditas em reencarnação, imploro que ignores
toda essa tua obsessão pela racionalização, pois, ainda és tão menino
para repulsar o que te leva ao desatino e manter teus pensamentos tão
prístinos.
joão, ao menos considere comigo, porque o que não faz sentido
é eu, com meu fracasso, ter o mesmo fim de pablo picasso
é eu e você, que somos tão discrepantes, acabarmos tão semelhantes
é todos nós, após tudo, esvairmos pelos ares e mais nada
absolutamente mais nada
não, joão, permanecerei em negação! e não irei te pedir perdão
não quero partir em paz, pois, solamente não quero partir
sou uma moribunda em seu estado terminal
e minha imensurável dor é não saber o desfecho final.
joão, saiba que o dia mais infeliz de minha vida
será o dia após minha morte
o primeiro dia em que o mundo continuará rodando sem meu carnal
semblante
e em meu leito me despedirei de ninguém além de mim mesma:
– adeus à quem não existirá mais.